FORTES E OUSADAS: Conheça Nellie Bly, pioneira das reportagens investigativas

“Nunca escrevi nenhuma palavra que não tenha saído do meu coração. E nunca farei isso.” A norte-americana Elizabeth Cochran Seaman (1864-1922), que assinava com o pseudônimo de Nellie (Nelly) Bly, iniciou sua carreira jornalística cedo, atacando uma coluna de conteúdo misógino publicada pelo Pittsburgh Dispatch. O editor do jornal ficou tão impressionado com o estilo da moça que acabou por contratá-la em 1880.

Nellie escreveu artigos sobre a condição de trabalho das mulheres nas fábricas, quando o jornal esperava que ela se dedicasse a assuntos mais “femininos”, como moda e trabalhos manuais. Contrariada, a jovem jornalista de apenas 21 anos viajou para o México, onde denunciou os ataques do governo contra as liberdades individuais, sendo ameaçada de prisão e intimada a deixar o país. Dessa sua aventura resultou o livro ‘Seis meses no México’.

Em 1887, já como repórter do New York World, Nellie se infiltrou em um sanatório feminino para investigar denúncias de maus-tratos e negligência contra as paciente. Para isso, estudou  a fundo os relatórios médicos da época e passou-se facilmente por insana. Seu objetivo era denunciar o despreparo dos médicos que faziam os diagnósticos de loucura e mandavam muitas mulheres saudáveis para instituições mentais. Também relatou as péssimas condições de higiene e o tratamento desumano das pacientes, que eram agredidas, humilhadas e roubadas pelos funcionários.

Suas experiências, dentro do sanatório de Blackwell’s Island foram publicadas no livro ‘Dez Dias em Uma Casa de Loucos’. Após a publicação, as autoridades iniciaram uma grande investigação no sistema de saúde mental em Nova Iorque. Nellie foi convocada como testemunha-chave em muitos julgamentos contra médicos e enfermeiros acusados de abusos.

Mas foi em 1889 que ela realizou seu feito mais grandioso. Embarcando em 14 de novembro de 1889 no vapor Augusta Victoria, ela percorreu mais de 400 mil quilômetros, refazendo o trajeto de Phileas Fogg. Levando consigo apenas o essencial  de bagagem  e carregando o dinheiro em uma bolsa debaixo da roupa, ela usou os modernos navios a vapor e os trens que começavam a dominar as principais regiões do globo.

O jornal rival Cosmopolitan financiou uma outra repórter para fazer o mesmo trajeto, mas Bly, viajou em sentido oposto ao dela, para que seus caminhos não se cruzassem. A viagem de Nellie foi uma espécie de reality show do fim da Era Vitoriana, pois seus progressos, comunicados  via telégrafo, eram publicados regularmente no jornal. Além disso, o New York World produziu um jogo de tabuleiro tendo a repórter e sua viagem como tema.

Em 1895, Bly aposentou-se do jornalismo e se casou com o industrial Robert Seaman. Já viúva, ela assumiu a indústria da família e por um tempo foi a única mulher a comandar uma indústria nos Estados Unidos. Retomou as atividades em 1913, cobrindo o movimento sufragista e a participação americana na Primeira Guerra Mundial.

Ao morrer de pneumonia em 1922, apenas dois anos após a aprovação da emenda que garantia o voto às mulheres americanas, Nellie Bly deixou contribuições para vários orfanatos, uma série de patentes de embalagens (incluindo uma para combustível e várias tentativas de embalagens para aumentar a vida útil do leite) e uma marca indelével no jornalismo: graças à sua ousadia, ela abriu o caminho para que outras mulheres de aventurassem no jornalismo investigativo nas décadas seguintes.

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